Feeds:
Posts
Comments

Tenho nenhum regardo pelo meu corpo.

Tenho nenhum regardo pelo tempo.

Eu ouço as palavras, mas elas não me fazem sentido.

Quando me tocam, me vejo insensível.

Meu paladar me engana.

Ignorante, quase não dou valor ao meu olfato.

Só me resta os olhos.

Os quais querem enxergar mais do que minha mente entende.

Presos em tão simples máquina, expostos a rapidez do universo.

Como se pode então entender o valor de nossa existência?

Bati na porta ao olhar pro teus olhos.

Pensei em ter visto ali, alguém.

Bati na porta ao olhar pro teus olhos.

Escutei no seu chamar, à dúvida que se mantém.

Bati na porta ao olhar pro teus olhos.

Senti em minha mão a força que não te convém.

Bati na porta ao olhar pro teus olhos.

Minha garganta a limpar, tinha no gosto, o seu desdém.

Bati na porta ao olhar pro teus olhos.

Esperei e esperei, e ali, já não havia mais ninguém.

Lelo Lourenzo

Advertisements

Capitu

Capitu

Machado de Assis, imagino-te enfaixado em roupas de época apertadas, um laço lustroso e bem feito, os óculos embaciados pelas lágrimas que te escorrem pela face. Se estivesses por aqui e pudesses descobrir o que é isto do audiovisual, da televisão, de arte feita com imagens em movimento, por vezes até da magia do teatro levada ao extremo; o teu lado lamechas sobressairia.
Machado de Assis, se na nossa época tivesses nascido, creio que não resistirias à tentação de produzir um filme, um série, uma novela, comerciais de televisão até. Não resistirias à tentação de jogar com todos os sentidos usando a literatura como suporte. Os planos, as perspectivas que em ti sentiste e as quais tão bem traduziste na cadência da pena; as tuas palavras em imagens transformadas. Hoje tudo isso é possível. Hoje constroem-se universos sabes? Acredito que agarrarias num livro como quem agarra num DVD e observarias extasiado a realidade que é apresentada perante ti.
Luiz Fernando Carvalho não resistiu ao teu “Dom Casmurro” e produziu uma obra de arte. Machado de Assis, meu caro Joaquim Maria, se assistisses a “Capitu” as lágrimas escorregar-te-iam pelas faces. Um dos mais altos aplausos à tua obra- “Capitu” é o que de melhor nos últimos anos se tem feito em televisão, nesta arte, nesta coisa nova, nesta mágica caixa. O teu Dom Casmurro é um elogio à língua portuguesa, é um marco literário mundial que agora dá origem a “Capitu”, pura poesia televisiva. Um século volvido e a tua obra é mais uma vez elevada. Lágrimas justas as tuas perante uma suprema manifestação artística que as tuas palavras tão bem soube carregar. “Capitu” faz estremecer, abana um meio onde sobram lugares comuns.

Fugazes, ágeis e caóticas são a maioria das minhas memórias. Quero muito aprisioná-las para as poder libertar quando me apetecer, para contrabalançar estados de espírito, para trocar as cores dos meus dias, para sorrir de forma diferente, para as ter simplesmente mais presentes, mornas. Hoje lembrei-me das longas viagens de comboio, de Lisboa à Beira Alta, à remota e castiça estação de Urtiga. Os meus avós paternos são de uma terra chamada Penhascoso (que em tempos se discutiu mudar o nome para Vila Nova de Penhas, o que teria muito mais charme, mas enfim). Assim que chegávamos, o meu avô ia-nos buscar de carro, um Ford vermelho escuro, velhinho, velhinho, velhinho mas perfeito. Um carro por quem os anos não passavam, assim como o meu avô. Com mais vida e energia, brilho e saberes práticos do que filhos, netos, vizinhos, gentes da cidade, conterrâneos da mesma idade e companheiros de décadas e vindimas, apanhas da azeitona, coisas da terra.

Na quase fantasma localidade de Urtiga (que provavelmente agora é mesmo fantasma) havia uma casa, uma mansão cheia de heras. Essa era a casa dos meus sonhos, tinha uns portões largos, umas janelas de castelo de princesa como nos meus livros de histórias encantadas. Essa casa parecia-me enorme, e eu na minha ingenuidade, acreditava no meu pai quando ele me garantia que um dia comprava aquela casa. A mansão era grande nos meus sonhos de menina e aos meus olhos miúdos. Para mim Urtiga, a estação de comboio perdida no meio do nada, a promessa de dias chatos na terra dos meus avós, tudo valia a pena para poder ver aquela casa. Para as crianças sonhar é tocar a realidade que anseiam, isso só por isso é tudo.

Nessas longas viagens de comboio eu lia desenhos de banda desenhada. Sim, porque eu não sabia na altura ler letras, ou talvez soubesse ler letras mas letras juntas, e aglomeradas construíndo palavras, isso já era mais complicado. Por vezes tínhamos de esperar muito tempo em algumas estações. Eu, pequenina, tinha alguns traços exagerados de hoje, fazia birras. Birras de aborrecimento do tempo parado, ou birras com o meu irmão do meio, ou lá com o que fosse, coisas de gente que aos cinco anos decidiu declarar aos pais que agora já tinha idade para fazer o que quisesse. Numa dessas birras atirei a minha BD preferida pela janela, o comboio estava parado em alguma estação da qual não guardo memória. Largos, largos minutos parados para o que tenho reminiscência de terem sido horas. Francamente duvido deste meu sentido de tempo, rasteiras da memória. Insisti muito para que me deixassem ir buscar o meu livrinho de BD, por alguma razão, que eu não sei, era o meu preferido. O meu querido livrinho de BD, vítima de uma birra, que eu conseguia vêr através da janela do comboio, abandonado no frio da noite e sem importância para mais ninguém no mundo, só para mim. Talvez o frustante sentimento de perda que me abarcou durante anos o tenha tornado o meu mais precioso livrinho de BD de sempre. Ir buscar a minha BD implicava sair do comboio e arriscar-se a ficar a noite inteira no meio de lugar nenhum se o comboio resolvesse partir de repente. Eu não queria saber, eu própria teria ido buscar a minha BD se me deixassem exercer o meu direito de fazer o que eu quisesse. Infelizmente, esse foi mais um episódio de birra e choradeira que não deu em nada. Uma lição a retirar, nunca em momento de birra atirar nada nosso por que tenhamos apreço pela janela fora.

Todas estas memórias me chegaram assim, como uma série de cartas derrubadas uma a seguir à outra, porque me lembrei das Misteriosas Cidades de Ouro. “Mystérieuses Cités d’Or”, desenhos animados da minha infância. Dizer “desenhos animados” não é natural em mim, soa falso se ouvirem isto da minha boca. Bonecos Animados, assim é que é. Os meus avós assim me aculturaram. Eu não vejo desenhos animados, não senhora, eu vejo Bonecos Animados. Dizer “bonecos”, não sei bem porque e não desdenhando um desenho, dá mais personalidade, alma, deve ser por isso que eu em tempos me apaixonei por alguns personagens. Sim, eu sei o que é viver um amor impossível. Mais tarde vim a descobrir que quem fazia a dobragem do personagem era o Miguel Guilherme. Para mim, o Miguel Guilherme não pode abrir a boca sem que eu o veja com uma grande guedelha estilo D´artagnan. “Os Três Mosqueteiros”, um dos meus Bonecos Animados predilectos de todo o sempre.

“As Misteriosas Cidades de Ouro”, lembro-me das cores douradas, dos amarelos, acastanhados, da aventura no ar, da magia de todo aquele universo. Não me lembro se assisti a tudo isto dobrado em português ou em francês. Também não importa. Lembro-me de uma permanente busca, viagens, peripécias, lágrimas, enganos, alegrias, a procura do El Dorado.

Quando viajava de comboio, no percurso que já não se faz, nas horas que já não se perdem, no mundo que já não é meu, naquelas velhas carruagens, sentava-me religiosamente colada ao vidro embaciado da janela. O meu pai ficava intrigado, a minha mãe sabia, eu procurava as cidades de ouro, as luzes. Por cada localidade que passávamos, e que se destacava na noite, eu gritada: “CIDADE DE OURO!”. Isso para mim era verdade.

Numa destas noites geladas de inverno, que me deixam o rosto anestesiado, dei por mim a olhar Nova Iorque da margem direita do East River, de Brooklyn. Apeteceu-me gritar “CIDADE DE OURO!”. E gritei.

Na Deli da esquina vi a capa do Daily News. A nova foto oficial de Barack Obama. Ligeiramente inclinada para a esquerda. Pareceu-me bem mas esperava um sorriso maior, mais rasgado. Será aquela a imagem que substituirá a fotografia do W no aeroporto de Newark, que quando pela primeira vez cheguei aos EUA, me apareceu à frente por debaixo do tradicional “Welcome to the United States of America”. Perder-se-á o efeito inesperado da gargalhada, completar-se-á o sorriso da nova foto oficial.

“Writing is the only thing that makes me feel that I´m not wasting my time sticking around.”

“Writing at its best is a lonely life.”

“The only constructive thing I ever learned about women – that no matter what happened to them and how they turned, you should try to disregard all that and remember only as they were on the best day they ever had.”

“My life´s ambition is to write as good as a Cèzanne. Haven´t made it yet but getting closer all the time.”

“All mistakes and awkwardnesses are easy to see, and they called it style.”

“The worse death of anyone is to lose the center of his being, the thing he really is. Retirement is the filthiest word in the language. Whether by choice or by fate, to retire from what you do – and what you do makes you what you are – is to back up into the grave.”

“All of my books started as short stories. I never sat down to write a novel.”

“It doesn´t matter that I don´t write for a day or a year or ten years as long as the knowledge that I can write is solid inside me. But a day without that knowledge, or not being sure of it, is eternity.

“Don´t do want you sincerely don´t want to do. Never confuse movement with action.”

“All you need is a perfect ear, absolute pitch, the devotion to your work that a priest of God has for his,the guts of a burglar, no conscience except to writing, and you´re in. It´s easy. Never give it a thought.”

“Hesitation increases in relation to risk in equal proportion to age”

“Paris and happiness are synonymous”

“How the hell can you bleed over your personal tragedies when you´re a writer? You should welcome them because serious writers have to be hurt really terribly before they can write seriously. But once you get the hurt and you can handle it, consider yourself lucky – that is what there is to write about and you have to be as faithful to it as a scientist is faithful to his lab. You can´t cheat or pretend. You have to excise the hurt honestly.”

“Fiction is invented out of what knowledge you have. If you invent successfully, it is more true than if you try to remember it. A big lie is more plausible than truth. People who write fiction, if they had not taken it up, might have become very successful liars.”

“All good books have one thing in common – they are truer than if they had really happened, and after you´ve read one one of them you will feel that all that happened, happened to you and then it belongs to you forever: the happiness and unhappiness, good and evil, ecstasy and sorrow, the food, wine, beds, people and the weather. If you can give that to the readers, then you´re a writer.”

“the best weapon against lies is the truth”

Papa Hemingway, A. E. Hotchner

“He might be a criminal, but at least he listened to his mother.”
ROSS INTELISANO, a lawyer for investors, describing Samuel Israel III, a fugitive financier who faked his own death, but surrendered after talking to his mother.

in The New York Times