Machado de Assis, imagino-te enfaixado em roupas de época apertadas, um laço lustroso e bem feito, os óculos embaciados pelas lágrimas que te escorrem pela face. Se estivesses por aqui e pudesses descobrir o que é isto do audiovisual, da televisão, de arte feita com imagens em movimento, por vezes até da magia do teatro levada ao extremo; o teu lado lamechas sobressairia.
Machado de Assis, se na nossa época tivesses nascido, creio que não resistirias à tentação de produzir um filme, um série, uma novela, comerciais de televisão até. Não resistirias à tentação de jogar com todos os sentidos usando a literatura como suporte. Os planos, as perspectivas que em ti sentiste e as quais tão bem traduziste na cadência da pena; as tuas palavras em imagens transformadas. Hoje tudo isso é possível. Hoje constroem-se universos sabes? Acredito que agarrarias num livro como quem agarra num DVD e observarias extasiado a realidade que é apresentada perante ti.
Luiz Fernando Carvalho não resistiu ao teu “Dom Casmurro” e produziu uma obra de arte. Machado de Assis, meu caro Joaquim Maria, se assistisses a “Capitu” as lágrimas escorregar-te-iam pelas faces. Um dos mais altos aplausos à tua obra- “Capitu” é o que de melhor nos últimos anos se tem feito em televisão, nesta arte, nesta coisa nova, nesta mágica caixa. O teu Dom Casmurro é um elogio à língua portuguesa, é um marco literário mundial que agora dá origem a “Capitu”, pura poesia televisiva. Um século volvido e a tua obra é mais uma vez elevada. Lágrimas justas as tuas perante uma suprema manifestação artística que as tuas palavras tão bem soube carregar. “Capitu” faz estremecer, abana um meio onde sobram lugares comuns.
Capitu
April 27, 2010 by Su
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