Fugazes, ágeis e caóticas são a maioria das minhas memórias. Quero muito aprisioná-las para as poder libertar quando me apetecer, para contrabalançar estados de espírito, para trocar as cores dos meus dias, para sorrir de forma diferente, para as ter simplesmente mais presentes, mornas. Hoje lembrei-me das longas viagens de comboio, de Lisboa à Beira Alta, à remota e castiça estação de Urtiga. Os meus avós paternos são de uma terra chamada Penhascoso (que em tempos se discutiu mudar o nome para Vila Nova de Penhas, o que teria muito mais charme, mas enfim). Assim que chegávamos, o meu avô ia-nos buscar de carro, um Ford vermelho escuro, velhinho, velhinho, velhinho mas perfeito. Um carro por quem os anos não passavam, assim como o meu avô. Com mais vida e energia, brilho e saberes práticos do que filhos, netos, vizinhos, gentes da cidade, conterrâneos da mesma idade e companheiros de décadas e vindimas, apanhas da azeitona, coisas da terra.
Na quase fantasma localidade de Urtiga (que provavelmente agora é mesmo fantasma) havia uma casa, uma mansão cheia de heras. Essa era a casa dos meus sonhos, tinha uns portões largos, umas janelas de castelo de princesa como nos meus livros de histórias encantadas. Essa casa parecia-me enorme, e eu na minha ingenuidade, acreditava no meu pai quando ele me garantia que um dia comprava aquela casa. A mansão era grande nos meus sonhos de menina e aos meus olhos miúdos. Para mim Urtiga, a estação de comboio perdida no meio do nada, a promessa de dias chatos na terra dos meus avós, tudo valia a pena para poder ver aquela casa. Para as crianças sonhar é tocar a realidade que anseiam, isso só por isso é tudo.
Nessas longas viagens de comboio eu lia desenhos de banda desenhada. Sim, porque eu não sabia na altura ler letras, ou talvez soubesse ler letras mas letras juntas, e aglomeradas construíndo palavras, isso já era mais complicado. Por vezes tínhamos de esperar muito tempo em algumas estações. Eu, pequenina, tinha alguns traços exagerados de hoje, fazia birras. Birras de aborrecimento do tempo parado, ou birras com o meu irmão do meio, ou lá com o que fosse, coisas de gente que aos cinco anos decidiu declarar aos pais que agora já tinha idade para fazer o que quisesse. Numa dessas birras atirei a minha BD preferida pela janela, o comboio estava parado em alguma estação da qual não guardo memória. Largos, largos minutos parados para o que tenho reminiscência de terem sido horas. Francamente duvido deste meu sentido de tempo, rasteiras da memória. Insisti muito para que me deixassem ir buscar o meu livrinho de BD, por alguma razão, que eu não sei, era o meu preferido. O meu querido livrinho de BD, vítima de uma birra, que eu conseguia vêr através da janela do comboio, abandonado no frio da noite e sem importância para mais ninguém no mundo, só para mim. Talvez o frustante sentimento de perda que me abarcou durante anos o tenha tornado o meu mais precioso livrinho de BD de sempre. Ir buscar a minha BD implicava sair do comboio e arriscar-se a ficar a noite inteira no meio de lugar nenhum se o comboio resolvesse partir de repente. Eu não queria saber, eu própria teria ido buscar a minha BD se me deixassem exercer o meu direito de fazer o que eu quisesse. Infelizmente, esse foi mais um episódio de birra e choradeira que não deu em nada. Uma lição a retirar, nunca em momento de birra atirar nada nosso por que tenhamos apreço pela janela fora.
Todas estas memórias me chegaram assim, como uma série de cartas derrubadas uma a seguir à outra, porque me lembrei das Misteriosas Cidades de Ouro. “Mystérieuses Cités d’Or”, desenhos animados da minha infância. Dizer “desenhos animados” não é natural em mim, soa falso se ouvirem isto da minha boca. Bonecos Animados, assim é que é. Os meus avós assim me aculturaram. Eu não vejo desenhos animados, não senhora, eu vejo Bonecos Animados. Dizer “bonecos”, não sei bem porque e não desdenhando um desenho, dá mais personalidade, alma, deve ser por isso que eu em tempos me apaixonei por alguns personagens. Sim, eu sei o que é viver um amor impossível. Mais tarde vim a descobrir que quem fazia a dobragem do personagem era o Miguel Guilherme. Para mim, o Miguel Guilherme não pode abrir a boca sem que eu o veja com uma grande guedelha estilo D´artagnan. “Os Três Mosqueteiros”, um dos meus Bonecos Animados predilectos de todo o sempre.
“As Misteriosas Cidades de Ouro”, lembro-me das cores douradas, dos amarelos, acastanhados, da aventura no ar, da magia de todo aquele universo. Não me lembro se assisti a tudo isto dobrado em português ou em francês. Também não importa. Lembro-me de uma permanente busca, viagens, peripécias, lágrimas, enganos, alegrias, a procura do El Dorado.
Quando viajava de comboio, no percurso que já não se faz, nas horas que já não se perdem, no mundo que já não é meu, naquelas velhas carruagens, sentava-me religiosamente colada ao vidro embaciado da janela. O meu pai ficava intrigado, a minha mãe sabia, eu procurava as cidades de ouro, as luzes. Por cada localidade que passávamos, e que se destacava na noite, eu gritada: “CIDADE DE OURO!”. Isso para mim era verdade.
Numa destas noites geladas de inverno, que me deixam o rosto anestesiado, dei por mim a olhar Nova Iorque da margem direita do East River, de Brooklyn. Apeteceu-me gritar “CIDADE DE OURO!”. E gritei.







